Nos últimos anos, o design brasileiro deixou de ser consumido apenas dentro do próprio país e passou a inspirar projetos em outros continentes. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha esse movimento que já ultrapassa as fronteiras do Brasil e se espalha por toda a América Latina, com fibras naturais, cerâmica colorida e paletas terrosas ganhando espaço em vitrines internacionais de decoração. O Brasil ocupa hoje a posição de terceiro maior produtor mundial de revestimentos cerâmicos, com polos industriais em Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais, o que ajuda a explicar a rapidez com que tendências globais chegam ao mercado nacional e vice-versa. A seguir, apresentamos informações sobre como essa estética regional se consolidou e o que ela representa para o design contemporâneo.
Do interior do Brasil para as vitrines internacionais
Tons de terracota, ocre, sienna e ferrugem sempre estiveram presentes na arquitetura vernacular do Nordeste, do interior de Minas Gerais e do Centro-Oeste brasileiro, construída historicamente com materiais e técnicas locais adaptados ao clima de cada região. Durante muito tempo, essa estética permaneceu associada a construções populares e pouco explorada em projetos contemporâneos de alto padrão, que preferiam paletas neutras e referências importadas de outros países.
Como examina Daugliesi Giacomasi Souza, a virada recente inverteu essa lógica ao transformar exatamente esse repertório regional em linguagem valorizada por arquitetos e designers de diferentes países. O Brasil não apenas abriu caminho para esse movimento na América Latina, como também passou a servir de referência para outras nações do continente que compartilham materiais, clima e tradições construtivas semelhantes.
Cerâmica brasileira: um mercado que já lidera o mundo
Poucas pessoas associam o Brasil à liderança global em um segmento industrial específico, mas o país ocupa hoje a terceira posição no ranking mundial de produção de revestimentos cerâmicos, atrás apenas de mercados muito maiores em população e escala industrial. Essa posição de destaque garante acesso relativamente rápido a inovações apresentadas em feiras internacionais, como a Cersaie, na Itália, e a Coverings, nos Estados Unidos, incorporadas ao mercado brasileiro em prazo inferior a seis meses.

Essa proximidade com o cenário internacional, na avaliação de Daugliesi Giacomasi Souza, funciona nos dois sentidos, já que fabricantes brasileiros também exportam soluções e estéticas próprias para outros mercados, reforçando a identidade latina dentro de um circuito antes dominado por referências europeias. A indústria cerâmica nacional, concentrada principalmente em Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais, sustenta essa troca com capacidade produtiva e qualidade reconhecidas internacionalmente.
Fibras naturais e cor como assinatura latina
Rattan, sisal, vime e outras fibras naturais típicas da região tropical compõem, junto à cerâmica artesanal colorida, o vocabulário visual que hoje identifica a estética latina em projetos de decoração ao redor do mundo. Diferente da paleta neutra que dominou boa parte da última década, essa estética aposta em cores vibrantes, como amarelos, verdes, azuis e rosas, aplicadas sobre bases terrosas que equilibram a intensidade cromática com sensação de aconchego.
O resultado dessa combinação, como sustenta Daugliesi Giacomasi Souza, foge tanto do minimalismo frio quanto do excesso decorativo sem critério, propondo um meio-termo que valoriza a personalidade sem comprometer a leitura visual do ambiente. Peças artesanais, muitas vezes produzidas por pequenos ateliês regionais, ganham papel central nesse tipo de projeto, substituindo itens produzidos em série por objetos com identidade local reconhecível.
O que essa estética latina representa além do visual?
Adotar essa linguagem em um projeto não significa apenas seguir uma tendência cromática ou de material, mas também reconhecer e valorizar produtores, artesãos e designers locais que historicamente tiveram menos visibilidade dentro do próprio mercado nacional. Esse deslocamento de valor representa uma mudança relevante em um setor que, por muito tempo, tratou referências estrangeiras como sinônimo automático de sofisticação.
Projetos que priorizam essa produção regional, segundo relata Daugliesi Giacomasi Souza, também tendem a apresentar menor impacto ambiental, já que a proximidade entre produção e consumo reduz a necessidade de transporte de longa distância típica de materiais importados. Essa combinação entre identidade cultural, valorização econômica local e sustentabilidade explica por que a estética latina deixou de ser apenas uma paleta de cores e passou a representar um posicionamento mais amplo dentro do design contemporâneo. O design latino-americano mostra que originalidade, muitas vezes, está menos em criar algo novo e mais em olhar com atenção para o que sempre esteve por aqui.
