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Na quarentena, aplicativos como o Tinder ganharam nova função

Criticadas por aprisionar usuários em suas redes (literalmente) e se tornar um empecilho para as interações frente a frente entre as pessoas, as ferramentas eletrônicas em tempos de pandemia acabaram sendo o instrumento que, ao contrário, aproxima os indivíduos. A constatação se estende inclusive aos sites e aplicativos de relacionamento, e não — ou não só — pelos motivos óbvios. Sem poderem avançar do contato virtual para o encontro ao vivo, como era de praxe, os usuários de Tinder e companhia estão se entendendo nas conversas como nunca antes, trocando impressões não apenas sobre si mesmos, mas sobre a solidão do isolamento, o tédio de não ter o que fazer, a saudade da família — enfim, temas que, no longínquo 2019, dariam unmatch na certa.

A publicitária Carolina Chehade, de 22 anos, relata que, desde março, a cada dez conversas suas no Tinder sete contêm desabafos sobre pessoas que, por exemplo, perderam o emprego ou têm familiares doentes. “Quando me vi sozinha no meu quarto, mesmo com a família em casa e os amigos ao alcance de uma chamada de vídeo, notei que estava precisando do afeto de pessoas que eu não conhecia”, explica. Com uma dessas pessoas, está passando para o segundo estágio possível: a troca de mensagens pelo WhatsApp. O marco da disparada da aproximação social no Tinder se deu no dia 29 de março, menos de três semanas depois de a pandemia ter sido oficialmente confirmada, quando o aplicativo registrou um recorde de mais de 3 bilhões de swipes no mundo . Para os menos familiarizados: swipe é o gesto que o usuário faz na foto de outra pessoa na tela do celular, arrastando-a para a direita quando agradou e para a esquerda quando não. Nunca, nos oito anos de existência da ferramenta, tantos dedos determinaram tantos destinos ao mesmo tempo.

O concorrente Bumble também teve aumento de trânsito (entre 13 de março e 1º de maio, o número de mensagens trocadas semanalmente cresceu 16%), e o motor de todos eles é a solidão que se abate sobre parte da humanidade. “O uso desses aplicativos se tornou uma compensação para a impossibilidade de encontrar pessoas espontaneamente, ao sair na rua”, explica a psicóloga Camila Figueiredo. Quanto mais rapidamente caminha a curva de contágio e maior é o grau de distanciamento social, mais frequentes são as interações. Na Espanha, país especialmente castigado pelo novo coronavírus, uma pesquisa mostrou que o uso do Tinder elevou-se em até 94% entre menores de 35 anos ao longo do primeiro mês da quarentena. Entre 20 de fevereiro e 26 de março, as trocas de mensagens no mundo todo ficaram, na média, 25% mais prolongadas. Usuária do Tinder desde que estava no ensino médio, a estudante de engenharia Thainá Mendonça, de 22 anos, resume a mudança de parâmetros: “Eu não me privo de conhecer pessoas para outros fins, mas hoje, se virar só amizade, não acho ruim”.

O isolamento do país aos olhos do mundo, o chefe do serviço paralelo de informação de Bolsonaro e mais. Leia nesta ediçãoVEJA/VEJA

Nesse contexto, não apenas a troca de mensagens é agora mais constante e comprida, como também as conversas por vídeo têm se popularizado. Um levantamento realizado em abril pelo site de relacionamento Match.com mostrou que 69% de seus clientes estavam abertos a chamadas de vídeo e mais de 30% tinham a intenção de realizá-las — muito acima dos 6% que usavam essa opção antes da pandemia. No Bumble, onde o video chatting existe desde o ano passado, o número dessas chamadas por semana cresceu 38% entre 13 de março e 1º de maio. O Tinder planeja disponibilizar o vídeo até o fim de junho. A estudante de jornalismo Paula Emanuelle, que já está na fase Whats­App com uma garota que conheceu no Tinder, confirma que a impossibilidade de as duas se encontrarem as obrigou a “ter mais calma e paciência para criar laços”. Ela atesta também a utilidade das chamadas de vídeo no namoro a distância. “Dá até para a gente cozinhar e jantar juntas”, diz.

No mundo das pessoas que vivem separadas de quase todas as outras, as tecnologias de comunicação vêm desempenhando papel fundamental. “Conversar com alguém, não importa onde esteja, ajuda os dois a se sentir um pouco menos sozinhos”, diz Elie Seidman, diretor executivo do Tinder. A plataforma liberou gratuitamente durante o mês de abril o “passaporte”, recurso pago que permite contatar pessoas em toda a parte do globo. O Bumble, por sua vez, abriu o acesso a perfis em qualquer lugar do país do usuário, em vez do raio de 160 quilômetros. “Essas tecnologias têm se mostrado bastante efetivas em estabelecer diálogo entre os indivíduos que se sentiam isolados”, ressalta a historiadora Mirtes de Moraes. Ela levanta, inclusive, uma curiosa questão: “Será que as conversas entre pessoas que dividem o mesmo teto têm sido tão longas quanto os bate-­papos virtuais?”. É de pensar.

Publicado em VEJA de 3 de junho de 2020, edição nº 2689

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