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BlackBerry volta ao mercado com aposta nos teclados tridimensionais

Poucas marcas corporativas passaram por altos e baixos tão intensos nas duas últimas décadas quanto a canadense BlackBerry. No início do século, o smartphone lançado pela empresa Research in Motion (RIM) revolucionou o mercado ao criar um aparelho que trazia um teclado tridimensional no corpo do celular. Hoje em dia, na era das telas touchscreen, isso parece bobagem, mas a novidade casou forte impressão naquela época por facilitar a tarefa de digitar textos de mensagens e e-mails. Não demorou para que o BlackBerry se tornasse inseparável na rotina de executivos bem-sucedidos, um símbolo de status profissional e sofisticação. Com o tempo, a reputação foi convertida em desempenho comercial: em 2005, o BlackBerry detinha 20% do mercado global de smartphones e 55% do americano, índices incomuns em qualquer ramo de atividade. O sucesso estrondoso não foi acompanhado pela preocupação da empresa em continuar inovando — o erro foi fatal. Em 2007, Steve Jobs apresentou ao mundo o iPhone, e o resto é história. A partir daí, a queda do BlackBerry foi tão rápida quanto a ascensão. Diante do aparelho de Jobs, com suas câmeras de alta resolução e a infinidade de aplicativos, o rival parecia, de fato, um trambolho obsoleto. Em 2016, sendo responsável por apenas 0,1% das vendas de smartphones no mundo, o BlackBerry foi retirado melancolicamente do mercado.

Agora ele está de volta. Para reconquistar os consumidores, a marca aposta nos aparelhos 5G, dotados de tecnologia de processamento 100 vezes mais veloz que a dos modelos 4G, e no sistema operacional Android. O retorno é fruto da parceria da OnwardMobility, startup americana que será responsável pela produção dos aparelhos, com a FIH, subsidiária da Foxconn, empresa taiwanesa que lidera a fabricação de componentes eletrônicos. À BlackBerry caberá apenas o licenciamento do nome do celular. Embora o design dos novos smartphones ainda não tenha sido finalizado, um detalhe é certo: eles virão com o icônico teclado alfanumérico tridimensional, raridade no mundo dos touchscreens. O motivo é simples. Os idealizadores do projeto desejam, obviamente, reconquistar os antigos clientes que fizeram a fama do BlackBerry duas décadas atrás.

BONS TEMPOS - Reunião de trabalho: nos EUA, a marca dominou 55% do mercado –Alistair Berg/Getty Images

Os atrativos do BlackBerry vão além da aparência. A marca ficou conhecida por produzir modelos seguros, com base em técnicas de encriptação que tornam o celular mais difícil de hackear. Desta vez, não deverá ser diferente. Segundo Peter Franklin, presidente da OnwardMobility, os novos produtos continuarão a priorizar a privacidade do consumidor, o que pode, sem dúvida, ser um diferencial em um setor marcado pela crescente clonagem de aparelhos. “O mercado corporativo sempre foi mais exigente em termos de segurança”, diz José Mauro da Costa Hernandez, professor de marketing da Universidade de São Paulo. É justamente esse público que a BlackBerry quer conquistar. “Se por um lado o mercado consumidor está muito bem ocupado com as grandes marcas, também é verdade que ninguém concentrou esforços no segmento corporativo, o que pode fazer diferença a favor do BlackBerry.” Os primeiros modelos serão lançados nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa no início do ano que vem. Se a resposta for positiva, a ideia é levar os aparelhos a todos os mercados importantes, inclusive o brasileiro.

O mundo da tecnologia vive uma aparente contradição. Com consumidores cada vez mais sedentos por novidades, os lançamentos são feitos em velocidade avassaladora, e o que parecia ser inovador hoje rapidamente será considerado ultrapassado amanhã. Mesmo assim, muitas empresas têm olhado para o passado para resgatar produtos que despertem alguma lembrança afetiva. É o caso dos discos de vinil, que foram superados há muito tempo por novas tecnologias mas que resistem ao passar dos anos, e não apenas entre os fanáticos: em 2019, 20 milhões de cópias de vinil foram vendidas nos Estados Unidos. As câmeras instantâneas, que parecem anacrônicas na era digital, também sobreviveram. O BlackBerry é mais um nobre representante dessa tendência a bater na tecla da nostalgia. No caso, literalmente.

Publicado em VEJA de 16 de setembro de 2020, edição nº 2704

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