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WhatsApp: Quem não aceitar nova política de privacidade será impedido de ler e mandar mensagens

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Após 20 meses e dois acidentes fatais, o Boeing 737 Max voltará a voar

O risco de um passageiro ser morto em um acidente de carro no caminho para o aeroporto é, estatisticamente, dezenas de vezes maior do que no voo em que ele embarcará. Desastres aéreos são raros e, quando acontecem, têm como causa fatores que não se repetem, pois tudo que se aprende com a queda de uma aeronave é usado para evitar outra tragédia igual. Aviões não caem, alegam os engenheiros: são derrubados. E, no caso do Boeing 737 Max, essa afirmação retórica é verdadeira. Em um intervalo de quatro meses, duas unidades do modelo foram abatidas pelo sistema de segurança que deveria protegê-las, matando 189 pessoas no mar da Indonésia e 157 na Etiópia, respectivamente em outubro de 2018 e março de 2019. Poucos dias após a segunda queda, todas as 387 aeronaves em operação em 59 países, incluindo o Brasil, ficaram proibidas de voar na mais longa paralisação da história da aviação, só encerrada em 18 de novembro.

No primeiro acidente com o 737 Max da Lion Air, já havia indícios de que os pilotos tinham perdido o controle devido à ação de um software chamado Mcas. O sistema impede que o jato aumente seu ângulo de ataque — ou seja, que levante o nariz — a ponto de perder sustentação. No voo fatídico, o Mcas aparentemente continuou a forçar o avião para baixo, contra as ordens dos pilotos, até despencar. Já suspeitando disso, os reguladores deveriam ter expedido a ordem de grounding (termo que significa “ficar em terra”), mas precisou ocorrer mais um desastre, desta vez com a Ethiopian Airlines, para segurar no chão o pássaro da Boeing. A centenária fabricante se viu então no meio de uma tempestade, sacudindo por tabela a economia dos Estados Unidos.

FLHA DE SISTEMA – O 737 Max da Lion Air: o software ficou fora de controle –PRNewsfoto/Boeing/.

A Boeing é a maior exportadora industrial em solo americano, emprega 130 000 pessoas e contrata milhares de fornecedores. O 737, em serviço desde 1968, é seu principal produto. Ideal para curtas e médias distâncias, trata-se do jato comercial mais vendido de todos os tempos. As duas tragédias, entretanto, puseram a companhia na berlinda, principalmente depois da suspeita de que seu presidente, Dennis Muilenburg, estaria pressionando a FAA (a agência americana reguladora) a retirar a ordem de grounding. Muilenburg acabou demitido em dezembro do ano passado.

A investigação que se seguiu expôs a cultura corporativa da Boeing. Mensagens internas mostram um alarmante desprezo dos profissionais mais graduados por colegas, clientes e fiscais. Expressões como “esse avião é uma piada”, “não confio em algumas pessoas daqui” e “não sei se a FAA entende o que está aprovando ou reprovando” aparecem em um compilado divulgado pelo jornal The New York Times. A crise acabou refletindo até na Embraer: a Boeing cancelou a aquisição de 80% da divisão de aviões comerciais da empresa brasileira — uma transação de 4,2 bilhões de dólares. Não se sabe ao certo o que teria motivado tal decisão, mas aparentemente o desgaste provocado pelo 737 Max, associado à troca de gestão, mudou os ventos da negociação, deixando a Embraer largada na turbulência.

TRAGÉDIA – Desastre: os destroços resgatados do avião no mar da Indonésia –Azwar/Anadolu Agency/Getty Images

A punição ao Max durou vinte meses, mas todas as unidades serão autorizadas a voar assim que as mudanças forem concluídas. Além da FAA, participaram da recertificação outras agências reguladoras, incluindo a brasileira Anac. O software de proteção foi corrigido, a extensa fiação trocada e os pilotos passarão por treinamento em simuladores específicos. Em vídeo, o diretor da FAA, Stephen Dickson, declarou que o avião é seguro: “Eu colocaria minha família dentro dele”, afiançou. A American Airlines quer sua frota pronta para voar em 2021. O mesmo deseja a Gol, única linha aérea brasileira a usar o 737 Max, com sete unidades em operação e 95 encomendadas.

A questão que se levanta é se o público costuma boicotar uma aeronave por seu histórico. Normalmente, isso não ocorre. Ao comprar um pacote, o passageiro quer saber se o voo é direto, a hora de partida e chegada e quanta bagagem pode levar. “É raro perguntarem qual o modelo da aeronave”, diz Nádia Botsaris, da Kauai Turismo. Ela esclarece que a maior preocupação do setor no momento é com a retomada das viagens e hospedagens na pandemia. A maioria das pessoas compartilha o sentimento de que voar é seguro. Já em relação às medidas tomadas contra a Covid-19, parece não haver ainda a mesma confiança.

Publicado em VEJA de 2 de dezembro de 2020, edição nº 2715

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