RIO Desde que

Alberto Fernández

foi eleito presidente da Argentina, em 27 de outubro, especulava-se sobre o nome que seria escolhido para comandar o Ministério da Economia. Afinal, Fernández e sua vice, a ex-presidente Cristina Kirchner (2007-2015), derrotaram o presidente Mauricio Macri principalmente por causa da gravíssima crise econômica, financeira e social no país, a pior desde 2001.

A lista de candidatos foi mudando, e o cargo, finalmente, será assumido por um economista pouco conhecido na Argentina e que construiu grande parte de sua carreira no exterior, ao lado do Prêmio Nobel de Economia,

Joseph Stiglitz

, ex-economista-chefe do Banco Mundial, conhecido crítico do ultraliberalismo. Trata-se de

Martín Guzmán

, de 37 anos, que nos últimos meses, confirmaram fontes argentinas, aproximou-se de Fernández e do futuro ministro da Produção,

Matias Kulfas

, com uma proposta de renegociação da dívida pública externa. 

Guzmán não era da equipe do presidente eleito. Era, talvez, o nome menos pensado. Mas sua estratégia para encarar um dos principais desafios do novo governo atraiu Kulfas, que foi funcionário dos governos de Cristina ocupou cargos no Banco Central , trabalha há dois anos no chamado Grupo Callao, criado por Fernández, e acabou atraindo, também, o presidente eleito e seus principais colaboradores.

Leia também: Conheça as ideias do novo ministro da Economia da Argentina

Durante a campanha e principalmente nos últimos meses, Fernández deixou claro que sua prioridade é que a Argentina volte a crescer. E que para isso não aceitará mais pressões do Fundo Monetário Internacional (FMI). Mais ainda, não quer mais receber desembolsos do crédito de US$ 57 bilhões concedido a Macri pelo FMI em acordo firmado em 2018. Essa ideia, confirmaram as fontes consultadas, partiu de Guzmán.

Leia mais: Pobreza na Argentina chega a 40,8%, diz estudo

A Argentina tem, de acordo com dados da Universidade Católica divulgados na quinta-feira, cerca de 40% de sua população vivendo abaixo da linha da pobreza. O pensamento de Guzmán, Kulfas e de todos os que formarão o novo governo é simples: se o país continuar gastando dinheiro para pagar dívidas e juros,  não terá recursos para reativar o crédito interno, um dos principais motores do crescimento.

A Argentina está isolada dos mercados, sua taxa de risco é uma das mais altas do mundo e a escassez de dólares é um problema grave. Economistas estimam que as reservas líquidas do Banco Central seriam inferiores a US$ 10 bilhões. Já os pagamentos de dívida (entre principal e juros) previstos para 2020 superam US$ 20 bilhões. A conta não fecha, sustentou Guzmán desde que começou a conversar com dirigentes peronistas.

Um dos encontros do novo ministro, ocorrido em Nova York, foi com Sergio Massa, peça central da aliança entre peronistas e kirchneristas liderada por Fernández. E como a conta não fecha, disse Guzmán a jornalistas locais que o conhecem, a proposta é radical: suspender todos os pagamentos do principal da dívida externa e dos juros por dois anos. Para todos, FMI e credores privados. Paralelamente, defende o economista que trabalha numa sala vizinha à de Stiglitz na Universidade de Columbia, devem ser negociadas novas condições de prazos e redução dos montantes totais a pagar.

O risco de que o mercado e o FMI não aceitem existe e não é menor. Mas Fernández e seus economistas parecem estar firmes e serão, disseram as mesmas fontes, inflexíveis. A Argentina poderia ser colocada numa situação de calote? Sim. Tudo dependerá do que for conversado nos próximos três meses.

A situação social com a qual deverá lidar o novo ministro do Desenvolvimento Social, Daniel Arroyo, que também ocupou cargos nos governos de Cristina, é delicadíssima. Quando a Argentina mergulhou na crise de 2001/2002, depois do fim da paridade entre o peso e o dólar, a taxa de pobreza chegou a 54%. Hoje está em 40% e crescendo. A inflação é uma das seis mais altas do mundo, na região superada apenas pela Venezuela.

Leia ainda: Embaixador no Brasil nomeado por Fernández diz que presidente eleito da Argentina quer ‘desestressar’ relação

A formação do novo Gabinete foi uma árdua negociação entre Fernández, Cristina, governadores e dirigentes peronistas como Sergio Massa. Houve tensão. A ex-presidente, que terá um forte controle das bancadas legislativas seu filho, o deputado Máximo Kirchner, será líder na Câmara rejeitou alguns nomes e impôs outros da sua confiança.

Nos últimos dias, Cristina teve um protagonismo na mídia e nas redes sociais que, claramente, evitou durante a campanha por seu alto índice de rejeição entre alguns setores da sociedade. Causou comoção seu discurso intimidatório dirigido a juízes que têm em mãos um dos nove processos em que a futura vice-presidente é acusada de corrupção, lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Algumas perguntas que não querem calar  faltando quatro dias para a posse    dizem respeito a se Fernández será tão independente de Cristina como tentou mostrar durante a campanha e se sua vice, afinal, terá o comando.

As principais figuras do Gabinete são próximas de Fernández o chanceler, Felipe Solá, é um dos mais próximos e o peso da equipe econômica é central. Dela dependerá, em grande medida, o sucesso ou fracasso do novo governo peronista-kirchnerista. Todos os olhares estarão dirigidos para Guzmán e Kulfas e ambos foram, essencialmente, uma escolha de Fernández.

A relação entre o futuro ministro da Economia e Stiglitz facilitou o aval de Cristina, que sempre elogiou a trajetória e as ideias do Prêmio Nobel. A aposta será ousada, e a reação do mundo ainda é incerta. 

Internamente, geram preocupação eventuais ingerências no Judiciário para favorecer kirchneristas processados ou presos por corrupção. O discurso de Cristina da semana passada pareceu um aviso,  e a adesão de Fernández ao agressivo pronunciamento de sua vice, a confirmação de que, em alguns assuntos, quem vai mandar é a ex-presidente.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *