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O ‘novo normal’ do pós-coronavírus já começou para quem viaja de avião

É como se o verbo viajar tivesse sido sequestrado do dicionário da realidade. Nestes dias em que, para bilhões de pessoas mundo afora, sair de casa se tornou sinônimo de ir no máximo até o supermercado ou à farmácia, os aeroportos, por exemplo, se tornaram verdadeiros desertos — sem nenhum oásis. Quem, por motivos inadiáveis, é forçado a embarcar em um voo de carreira frequentemente vê reproduzido dentro das aeronaves um cenário semelhante: quase ninguém nos assentos, tampouco nos corredores. E atenção, senhores passageiros: esse é apenas um dos aspectos que se desenham no horizonte para o pós-pandemia, o “novo normal” que deverá se estabelecer a partir das lições — muitas amargas — que serão deixadas pelo surto de Covid-19. Dito de outra forma: o futuro, no âmbito do turismo, já começou. Está no presente.

Tudo se inicia em terra, com a adoção de medidas para preservar o distanciamento físico entre os viajantes. Dentro dos aviões, os novos protocolos das companhias impõem reforço na higienização, com o uso de mais desinfetantes, aumento da filtragem do ar e uma distribuição na ocupação dos assentos a fim de permitir que os passageiros não fiquem próximos — o que, convenhamos, não tem sido difícil com os aviões vazios (há voos saindo dos Estados Unidos com apenas dezessete pessoas a bordo). Além disso, em um número crescente de empresas aéreas, os viajantes vêm sendo obrigados a usar máscara — algo que havia sido determinado antes para toda a tripulação.

Falta de consenso entre as autoridades e comportamento de risco da população transforma o isolamento numa bagunça. Leia nesta ediçãoReprodução/VEJA

Em tempos de crise, pode-se recorrer ao passado para enxergar de que maneira o presente começa a funcionar como um rascunho, por assim dizer, do futuro. Logo após os atentados terroristas ao World Trade Center de Nova York, em 11 de setembro de 2001, as normas de segurança das viagens aéreas foram radicalmente modificadas. A inspeção dos passageiros tornou-se muito mais rígida, o que resultou em enormes filas no raio x; restringiu-se bastante o que pode ser levado na bagagem de mão; a porta da cabine dos pilotos passou a ser à prova de balas. Depois de quase duas décadas, praticamente ninguém se lembra de como eram as coisas antes. Tudo passou a ser perfeitamente aceitável. A expectativa do setor de viagens é que o mesmo ocorra com as medidas de precaução de agora.

Por enquanto, para tentar reverter o inacreditável tombo provocado pela eclosão da Covid-19 — só no Brasil o número de voos caiu 90% desde o começo da pandemia do novo coronavírus, as empresas aéreas vêm lançando mão de uma série de estratégias. Há, por aqui, promoções que podem fazer o preço de um bilhete internacional ficar até 60% mais barato. Numa medida acertada, algumas companhias também decidiram simplesmente não cobrar taxas para a remarcação de passagens. E para quem está preocupado com o vencimento de suas milhas — que talvez demore muito até que possam ser utilizadas — a notícia é boa. Grande parte das empresas, que voam para os diferentes continentes, optou pela renovação dos seus programas de fidelidade — alguns deles até janeiro de 2022.

Nada mau — sobretudo considerando que, dada a reviravolta do mercado, os viajantes do período pós-pandemia não possam esperar somente céu de brigadeiro. Com a redução no número de passageiros, devido à limitação da ocupação de assentos, não se descarta a possibilidade de que o valor das passagens aéreas chegue mesmo a dobrar. Os embarques, que neste momento de campanha cerrada pela quarentena se tornaram rapidíssimos, poderão demorar até quatro horas, ao longo das quais os viajantes serão submetidos à checagem de saúde, incluindo testes de sangue (e não meramente a tomada de temperatura, feita hoje em dia em vários locais). Ainda assim, após experimentar tamanho confinamento; depois de só poder ir até o supermercado ou à farmácia — ah, isso será o de menos.

Publicado em VEJA de 13 de maio de 2020, edição nº 2686

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